• CONCERTOS
  • 9 de Junho 2010

    Ducktails

    É um dos fenómenos mais dolorosamente irónicos dos últimos dez anos. A música que o rock underground anos 80 “combatia” e desdenhava é hoje uma parte importante do “underground”. Dito de outra maneira: regressou o som gorduroso de certa música dos tops, das séries de televisão e dos filmes, das cassetes piratas e de rádio. E regressou como um fantasma. Perturbado (nas canções de Ariel Pink), concreto (na electrónica de Oneohtrix Point Never ou dos Emeralds), abrasivo (nas misturas Sun Araw e Gary War).

    Sobre ela há que fale em espectros, melancolia, imagens mentais, sonhos, viagens no tempo, mas no fundo trata-se apenas da reactivação de um material. O gesto de novo, portanto, não tem nada. Basta lembrar o que e como fizeram (com o blues) as bandas inglesas dos anos 60, ou os Stooges diante da carcaça do primeiro (e já agora genuíno) garage-rock.

    O que distingue então esta sonoridade, entretanto, já muito carregada de categorias? Bom para começar, uma certa experimentação e um trabalho com uma memória difusa de cores, ruídos e melodias que podemos situar entre os anos 80 e os primeiros anos dos anos 90. Por outro lado, um distanciamento da gesta do indie-rock, que se comprova no cariz ambiental, muito pop e intimista das canções.

    E assim chegamos aos Ducktails, projecto a solo de Matthew Mondanile, que é, também, um dos membros dos Real Estate. A dívida para com Ariel Pink (um dos precursores disto tudo, façamos-lhe justiça) é evidente, assim como se ouve, sem grande esforço, a nostalgia filtrada pelas guitarras, a cassete e a caixa de ritmos, e as reminiscências de coisas que também reconhecemos (uma batida, um acorde). O clima é relativamente tropical, benigno e não há lugar para riffs, grooves ou adrenalina. Isto é a música depois de um concerto ainda se houve em casa, sobre a almofada, para curar ou ferir saudades.

    Ainda assim há uma memória menos distante que se revolve e se resolve, em particular nalguns temas de Landscapes (2009), o último trabalho de Ducktails: o fantasma do corpo de Stephen Malkmus a cantar em Reading. Ou num videoclip na velhinha MTV. JM

    Concerto integrado no Ciclo de Cinema no Terraço

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