• Cinema
  • 4, 11, 18, 25 Setembro e 2 Outubro 2013

    Fandom – Cinema no Terraço 2013

    @ Luís Martins ..
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    À medida que a segunda metade século XX vai ficando para trás, cria-se uma distância que permite, quando não instiga, um olhar analítico sobre a música popular produzida nesse período. Constroem-se e revêem-se narrativas, investigam-se realidades e práticas culturais, examinam-se documentos. Do universo académico, da imprensa musical, de artistas e realizadores de cinema documental, chegam perspectivas, pontos de vistas, imagens, memórias. A história da pop-rock redescobre-se com os seus objectos esquecidos, as suas personagens secundárias, os seus derrotados. A presente edição do Ciclo de Cinema no Terraço confronta-se com essa redescoberta, com esse olhar retrospectivo, exibindo filmes estílica e formalmente diversos. Do registo amador, em vídeo e com poucos meios, a obras com uma ambição mais artística até ao formato mais convencional do documentário musical. A relação das pessoas com a música, enquanto fãs, membros de uma subcultura juvenil e eventuais melómanos, marca o compasso deste ciclo de cinema.
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    ‘The Height of Goth: A Night at the exclusive Nightclub: Batley, West Yorkshire UK’, filme comissariado por Annie e Peter Swallow (1984, 130′) .
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    Produzido por razões que permanecem obscuras, The Height of Goth (1984) centra-se nos corpos, nos penteados e nas poses dos jovens frequentadores de um clube nocturno. Estamos em West Yorkshire, Norte da Inglaterra, no pináculo do regresso do rock às Ilhas Britânicas, depois do motim do pós-punk. O disc-jockey passa a música que nos anos 1980, em Portugal, era apelidada de “rock de vanguarda” e canções criteriosamente seleccionadas de outras épocas enquanto raparigas e rapazes conversam, dançam, trocam olhares. São gestos que, embora vigiados pela presença da câmara, se tornam progressivamente menos encenados, insinuando um féerie que tem como causa principal a música. Longo, com situações que se repetem, “The Height of Goth” exige paciência, atenção ao espectador. Só dessa forma, o seu valor documental se desvela, estabelecendo sentidos entre os gostos musicais dos jovens, a selecção dos temas e a informação providenciada pelas curtíssimas entrevistas. Ficam aqui, a propósito, dois apontamentos: o momento em que várias raparigas dançam ao som de “Don´t Go Back to Rockville”, canção dos REM que, em termos líricos, poderia retratar as suas experiências em West Workshire (pelos depoimentos muitas estão no desemprego e não têm grandes perspectivas de futuro) ou o entusiasmo de alguns frequentadores quando ouvem “War Pigs” dos Black Sabbath; entusiasmo que ilumina afinidades entre estilos musicais e tribos urbanas.. .
    ‘Our Hobby Is Depeche Mode’ de Jeremy Deller e Nicholas Abrahams (2008, 60’) .
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    Os Depeche Mode são um dos grupos que se ouvem nessa noite e, ao contrário dos jovens de “The Height of Goth”, lograram sair da cidadezinha, neste caso Basildon, para se tornarem num dos maiores grupos pop de sempre. Our Hobby is Depeche Mode (2008), de Jeremy Deller & Nick Abrahams, mostra-nos um pouco do ambiente social onde os quatros músicos cresceram, mas pelas vozes dos fãs. São eles os protagonistas do filme e encontramo-los na Rússia, na Roménia, nos Estados Unidos, no Irão, na Inglaterra. Mais do que documentar, este filme, que continua por exibir comercialmente, descreve os usos e as gratificações que a música pop permite aos seus apreciadores. Não faltam aqui testemunhos. A multitude de vozes contrasta com a “timidez” de “The Height of Goth” o que não deve constituir surpresa. “Our Hobby is Depeche Mode” é um filme que parte de uma realidade nos anos 1980 ainda pouco teorizada: a globalização da música pop e o concomitante trânsito transnacional e intercultural de sons, canções, palavras. Por isso, tem a forma de um mosaico construído sobre diferentes latitudes que atravessa histórias pessoais (Inglaterra, Estados Unidos) e colectivas (o leste Europeu). Não se limita a homenagear os fãs, explora o modo como a música ajuda as pessoas a forjarem uma identidade cultural e política, uma personalidade social ou a lidarem com problemas pessoais. É um filme optimista, em profunda sintonia com as visões conciliadoras dos Cultural Studies.
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    ‘For the Love of Dolly’ de Tai Uhlmann ( 2006, 56’) .
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    For the Love of Dolly (2006), de Tai Uhlmann desliza para outros lugares, mais desconfortáveis, quando não sombrios. Os fãs da cantora americana não se confundem com os fãs dos Depeche. Para eles Dolly é mais do que um hobby. Está no centro das suas vidas. É uma religião, com os seus rituais, os seus sacramentos, as suas peregrinações e lugares sagrados. E vivem-na sem reservas ou excepções. Conseguimos imaginar a autonomia dos fãs do Depeche Mode, não a de Patric Parkey e Harrell Gabehart imersos em fotografias, bonecas, telas e cartazes ou a de Jeannette Williams, de lágrimas nos olhos porque Dolly Parton não lhe acenou: em “For the Love of Dolly”, a cultura fandom transforma-se numa patologia de adolescentes que não cresceram. Nem por isso a realizadora julga os entrevistados: sabem que todos têm as suas razões. Para David Schmidli, o culto a Dolly Partoon ajuda de facto a viver e, suspeitamos que Melisa Rastellinni também encontrou, na cantora, o conforto que precisava. De todos os fãs, ela é aliás a única que parece consciente da sua condição. E será também a única que, ficamos saber, romperá com o culto.
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    Heavy Metal Parking Lot’ de Jeff Krulik e John Heyn (1986, 17′) .
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    Os jovens de Heavy Metal Parking Lot (1986), de Jeff Krulik and John Heyn têm outra relação com os seus ídolos. São fãs sem fandom. Esperam nas imediações do Capitol Centre, em Landlover, Maryland, pelo concerto dos Judas Priest, mas não parecem genuínos militantes do heavy-metal. A maioria quer apenas divertir-se, entre muito álcool, obscenidades e brindes dedicados as bandas. Alguns estão ali com o patrocínio dos pais, outros parecem fugidos de casa. E há quem apareça movido pela curiosidade, pelo desejo de festa. A câmara desenha curtos travellings antes de pousar num grupo, num par de amigos ou namorados, num indivíduo, compondo uma galeria de retratos que não destoaria do universo visual de Larry Clark. Com algumas excepções, em 1986 os headbangers americanos exprimem os defeitos do white trash: são brancos, rudes, pobres e pouco sofisticados. Em 1986 o heavy metal ainda se confundia com hard-rock e não tinha galopado o mainstream. Os seus códigos demorariam a cristalizar-se e apenas no underground se admitiam certos cruzamentos.

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    ‘Metal: A Headbanger’s Journey’ de Jessica Joy Wise, Sam Dunn e Scot McFadyen (2005, 98′) .
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    Realizado em 2005, Metal: A Headbanger’s Journey, lida já com efeitos dessas mudanças, dirigindo-se aos leigos e aos menos informados a fim de lhes explicar as origens, os principais momentos e os protagonistas do género. O tom é laudatório, mas o realizador, Sam Dunn não prega aos convertidos. Cingindo-se ao formato do rock documentary, evoca o parentesco do metal com o blues, a sua origem social (vem da classe trabalhadora, apela aos desfavorecidos), as polémicas que provocou, as acusações de que foi alvo. Explora a sua árvore genealógica. Assinado por um headbanger assumido, também não evita assuntos delicados, nomeadamente a violência do black metal norueguês numa muito elucidativa entrevista com dois membros dos Mayhem. Antes de terminar em beleza, com a única concessão aos fãs, em pleno festival de Waldorf.
    ‘The Decline of the Western Civilization part II – The Metal Years’ de Penelope Spheeris (1988, 93′)
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    The Decline of Western Civilization Part II: The Metal Years (1988), de Penelope Spheeris, recua na história até aos anos dourados do heavy metal de Los Angeles, quando as estrelas pop ainda aspiravam a um sucesso global. Coloca as bandas num estúdio, tenta controlar a direcção dos depoimentos, quer os entrevistados lúcidos. E isso nem sempre é fácil. O filme tem uma premissa muito clara: sondar e realçar os sonhos, as expectativas, os comportamentos de uma série de bandas associadas à cena de Sunset Strip. E faz isso muito bem, com uma série de retratos tocantes e confrangedores de vocalistas, guitarristas, candidatos a músicos, groupies. Emoldurados em laca, calças justas e blusões coloridos, têm o mesmo objectivo: chegar ao estrelato, a todo o custo. Para eles, não existe outro destino. Ironicamente, só a banda que de facto atinge os tops (os Megadeth) reivindica a importância da música acima do sucesso comercial. Todas as outras, pese embora a entrega e a convicção, desaparecerão no anonimato.
    ‘Rock My Religion’ de Dan Graham (1983-1984, 60′) .
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    Há um nome mencionado ao de leve em “The Decline of Western Civilization Part II: The Metal Years” que, sabemos hoje, não cairia no esquecimento: os Guns N’ Roses. Durante meia década, a banda de Axl Rose foi a banda dos adolescentes. Excitou-os, transtornou-os, frustrou-os e nesse sentido podia muito bem figurar em Rock My Religion (1982), o vídeo-ensaio em que Dan Graham desenvolve a sua tese sobre o rock. Nos Estados Unidos, propõe o artista, a música popular tem genealogias secretas com certas cerimónias dos Shakers (uma comunidade religiosa do puritanismo anglo-saxónico) e massifica-se nos anos 1950 devido ao processo de suburbanização nas principais cidades do país. Se com as suas danças, os shakers exorcizavam em comunidade os seus demónios, com a música rock os jovens exorcizavam as suas frustrações suburbanas, numa experiência comunitária em torno de um performer. Mas o arrojo da leitura de Dan Graham não ficava por aqui. O rock podia mesmo vir ser uma nova religião, cívica, laica, popular, ou uma arte mais eficaz e humana que a própria arte. Reflexão fascinante, expressão de uma utopia cultural composta em imagens (Patti Smith, Black Flag) e sons (Sonic Youth, Glen Branca), “Rock My Religion” desenvolve visualmente alguns dos interesses teóricos de Dan Graham e é um documento de um período em que o rock ainda era visto (ainda que já por uma minoria) como uma prática emancipatória. JM
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    PROGRAMAÇÃO CINEMA TERRAÇO 2013
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    Quarta, 4 Setembro às 22h
    Our Hobby Is Depeche Mode de Jeremy Deller e Nicholas Abrahams (2009)
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    Quarta, 11 Setembro às 22h
    For the Love of Dolly de Tai Uhlmann (2006)
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    Quarta, 18 Setembro às 22h
    Heavy Metal Parking Lot de Jeff Krulik e John Heyn (1986)
    Rock My Religion de Dan Graham (1983-1984)
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    Quarta, 25 Setembro às 22h
    Metal: A Headbanger’s Journey de Sam Dunn (2005)
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    Quarta, 2 Outubro às 22h
    The Decline of the Western Civilization part II – The Metal Years de Penelope Spheeris (1988) .
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    Centro de Documentação – dias 4, 11, 18, 25 de Setembro e 2 de Outubro a partir das 21h
    The Height of Goth: A Night at the Xclusiv Nightclub: Batley, West Yorkshire UK (1984) .
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    * Os filmes deste ciclo não têm legendas em Português

    Entrada para exposição/terraço/cinema: 2€ Reservas: 21 343 02 05 ou [email protected]