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CONCERTOS
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30 de Maio 2014
Caveira | Mark Morgan

CAVEIRA
É difícil não elaborar um balanço justo do passado recente da música nacional sem recordar o período dourado que se viveu em plena alvorada do milénio. Uma série de manifestações assentes numa filosofia livre de convenções estéticas, aproveitando o caminho da nova experimentação e iluminadas pelo desígnio do ‘fazer acontecer’. Editoras, eventos, e claro, um leque de artistas de diversas origens foram as facetas mais visíveis dessa geração.Os CAVEIRA foram então um dos vértices fortes deste quadro (juntamente com Loosers ou com os saudosos Fish & Sheep), responsáveis máximos por uma encarnação extra-física do rock, implosiva e inédita, tal o desconhecíamos até então no panorama português. Com o disco de estreia ‘África’ (ainda hoje um pujante documento), escutou-se como do caos e da fúria poderiam nascer torrentes de groove e de massa sónica quebrada, mastigada e regurgitada. Ecos díspares de gente como Dead C, Royal Trux ou Ash Ra Tempel fizeram-se pairar sem que a música, contudo, ficasse refém dessas referências; na verdade, a combustão instantânea do trio lisboeta sempre teve uma genética tão bastarda quanto mestiça. E ao vivo, a cauda do cometa ainda se fazia mais incendiária com passagens memoráveis na Caixa Económica Operária, Lux ou ZDB. Certa vez, quando questionados sobre a sua possível definição, os próprios construíram uma brilhante imagem capsulada nos instantes finais de um concerto rock, em que o êxtase natural do momento se funde
num mar de feedback, para além dos limites do concreto.Mas a existência dos CAVEIRA tem sido também pautada por pequenas mudanças de alinhamento. Primeiro com a saída de Rita Vozone, depois pela breve transformação a duo, para uma seguinte pausa que viria a rachar-se apenas em finais de 2012. Foi nesse período, na Galeria Zé dos Bois, que se assistiu a um inovador capítulo na banda através da entrada de outras pessoas e, consequentemente, de novas ideias e abordagens. A Pedro Gomes juntaram-se assim as cordas mutantes de André Abel (Aquaparque e Tropa Macaca) e as baquetas fulminantes de um prodígio chamado Gabriel Ferrandini (RED Trio, ACRE, Rodrigo Amado e tantos outros).
Para muitos, e com a devida justiça, tratou-se de uma das melhores actuações desse ano numa ocasião de (re)encontro quase histórico. Entre tantas novidades, ressaltou um som assumidamente híbrido, recorrendo a uma multiplicidade impressionante de texturas e tons, digno de quem possui
um léxico enriquecido à conta do próprio calo. Enquanto não surge registo material do grupo, resta a oportunidade (e não abundam) de os ver e ouvir em palco. Arena de exorcizações maiores onde seremos todos nobres testemunhas da passagem de mais um tufão.NA
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Mark Morgan
Alma essencial no espectro sonoro dos norte-americanos Sightings, a guitarra de Morgan desde cedo se desmarcou dos seus contemporâneos. Numa década atravessada a braços com oito discos majestosos, e mesmo convivendo com uma impressionante geração de artistas que encontraram no ruído bruto um ponto de partida para incursões inimagináveis, facto é que ainda transporta uma energia única. Um feito admirável, cujo modo paranóico e contaminador que faz exteriorizar do instrumento, há muito o patenteou como hábil mestre na permanente mutação sonora. Testemunho sério de como a mais mínima noção de virtuosismo nunca ousou sombrear a exploração genuinamente intuitiva, quase niilista. Uma via que lhe descortinou então o desenvolvimento de uma técnica extremamente pessoal – na verdade, tão pessoal quanto uma assinatura.Escutá-lo a solo traz, por ora, algumas questões pertinentes. Desde logo sobre a sobrevivência desse tal carimbo na primeira pessoa, fora do confortável contexto colectivo, interrogando-nos no imediato sobre a existência ou não de acrescentos consideráveis ao então já conhecido. A resposta encontra-se, de forma tão difusa quanto a sua música, no disco que agora vê editado. Se por um lado nos coloca frente a frente com a tensão eléctrica habitual, por outro abre dimensão a uma breve, mas consistente, busca de novas vias expressão. Talvez consciente dessa armadilha criativa, Morgan opte aqui por uma entrega puramente instrumental, abandonando momentaneamente o registo vocal familiar à triangulação Sightings. Compreende-se nessa visão de território inaudito, um complexo conjunto de experiências menos físicas e amplamente mais anímicas. Da crepitação de detritos lançados à fogueira, surgem jogos de ilusão onde a realidade se distorce e a erosão desvenda quase-melodias, imaginadas e reproduzidas fora deste mundo. Um campo de forçasradioactivas – ainda e sempre – distante de tudo, distante de todos. NA
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