• CONCERTOS
  • 24 de Março 2010

    David Maranha | Peaking Lights

    Foto de Vera Marmelo

    David Maranha
    O novo disco “Antarctica” (Roaratorio records) explora, num processo abrasivo, o poder da transformação do som através do drone. O estado repetitivo funde e expande o som, cria variações que provocam uma meta-sonoridade, em que a linguagem (neste caso, a música) desvela um novo sentido. A percepção é extra-sensorial – escapando ao processo cognitivo usual e manifestando-se num método coevo de destruição referencial – e modela um estado de inquietude que, camada após camada, percorre uma contínua e lenta génese de teoria e prática da composição.

    David Maranha: órgão
    Bernardo Devlin: órgão
    Manuel Mota: baixo
    Riccardo Wanke: fender rhodes
    Afonso Simões: bateria

    .

    .

    Peaking Lights
    Com tantas irrupções de música cósmica só a evocação, mesmo que em surdina, das palavras teclado, analógico e electrónica, consegue ulcerar os espíritos mais resistentes. A sério. Este recente revivalismo em torno de (quase) tudo o que foi ambient, kraut e kosmische é como o regresso de Coppola: um aborrecido equívoco.

    Felizmente, nem todos têm as mesmas pretensões académicas. Há quem, com meios semelhantes, faça outra coisa que não recauchutagens, apropriando-se (quando necessário) das coisas dos outros e – o que é mais importante –, sem que se note a ansiedade.

    Cinco nomes podiam já saltar aqui, mas ficamo-nos por um: Peaking Lights. Ou Aaron Coyes e Indra Dunis, um casal americano de Madinson, no Wisconsin que em 2009 assinou “Imaginary Falcons”, disco precioso que terá passado nublado a muita gente.

    E dizemos precioso porque esse é o predicado certo. Na música dos Peaking Lights aquilo que desenha os ritmos, o reverb, o feedback ou o ruído, não são os instrumentos, mas a melodia e a canção, mesmo quando frágeis, tais pequenas miniaturas. E aqui (afinal) saltam mais dois nomes: Beach House e Tickley Feather. O gesto é o mesmo: compor com pouco – seja a partir da voz, de um teclado gasto, de um gravador – para atingir um forma clássica.

    Os Peaking Ligths evocam, portanto a história (a deles, a da pop, do rock, do undergound americano), mas através da simples experimentação, deixam as coisas por acabar, mantém as distâncias. Como os Goslings ou os Gowns, vão ao fundo do ruído para trazer de volta a canção. E basta-lhes um acorde de guitarra, um sussurro, a repetição de uma vogal. JM

    .