• RESIDÊNCIAS
  • De 20 de Abril a 9 de Maio

    Ágata Pinho

    foto-O-Fosso-dos-Herois---Joana-Linda
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    oto: Joana Linda

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    A partir de “Cassandra” de Christa Wolf (escritora da RDA), uma narrativa publicada em 1989, na iminência da reunificação da Alemanha, Ágata Pinho constrói o seu espectáculo com o título O Fosso dos Heróis.

    O Fosso dos Heróis começa perto do fim: finda a guerra de Tróia, Cassandra é feita prisioneira por Agamémnon e sabe que, nessa mesma noite, será morta por Clitemnestra, como parte da vingança desta. Com a aproximação da morte, Cassandra propõe-se a um exercício de memória, onde recordará os dez anos de horror, começando pela vida simples de uma rapariguinha feliz, passando pelas atrocidades da guerra e, na conclusão destas memórias, regressa finalmente à cela onde se encontra e onde a sua vida será terminada. Cassandra, a profetisa, a consciência infeliz que adverte incansavelmente, no entanto, por maldição, nunca é acreditada. Assim, como uma das poucas troianas sobreviventes, é testemunha da inteligência humana que constantemente falha em reconhecer o preço da guerra para os vencidos e para os vencedores – uma inteligência que prefere a violência cega e devoradora antes de admitir derrota ou paz. A figura de Cassandra é símbolo, por excelência, da mulher aniquilada em cenário bélico; ao mesmo tempo, ela é a antagonista do herói tradicional: de Aquiles, de Agamémnon, de Príamo, rei de Tróia e seu pai – heróis que simbolizam a capacidade bélica destrutiva e obstinada, mesmo numa guerra que se baseia numa mentira. Cassandra é uma visão feminina da guerra que personaliza a tragédia dos vencidos.