• Cinema
  • 7, 14, 21 e 28 Julho 2011

    Cinema no Terraço – Julho 2010 (Quartas-Feiras)

    Em Julho, sempre às quartas, a ZDBMÜZIQUE apresenta mais um Ciclo de Cinema dedicado à música. A singularidade das propostas musicais, não só unifica as quatro sessões, como representa um dos critérios fundamentais da nossa selecção. Ao longo do ciclo, atravessaremos as últimas três décadas de criação musical em busca do que se posicionou nas margem e se alimentou da exploração dos limites, construindo assim um legado de absoluta pertinência artística. Maioritariamente provenientes das artes visuais, estes artistas ofereceram à criação musical uma procura da individualidade e uma rejeição profunda do expectável. Esta não-pertença é o que os pode unir.

    Assim irão ser apresentados 4 propostas que gravitam nas raias do documentário/documento artístico e que de forma transversal nos ajudam a perspectivar uma abordagem transgressora e exploratória da música.

    Na primeira sessão, exibiremos o filme, em formato Super 8, de Ericka Beckman, artista nova-iorquina que em “135 Grand Street, New York, 1979” perspectiva, de forma transversal, toda uma geração de artistas – de Glenn Branca, Rhys Chatham ou Theoretical Girls – que enformaram o movimento No Wave.

    As curtas-metragens inaugurais da filmografia de Vivienne Dick em que participaram vários artistas e músicos como Pat Place (The Contortions & Bush Tetras) e Lydia Lunch, revelam não só uma linguagem musical, mas também uma visão política e social emergente do meio Nova-Iorquino dos anos 70 .

    Herdeiros maiores dos nomes supracitados, os Sonic Youth serão aqui representados através dos Noise Films realizados por Lee Ranaldo, Leah Singer e Chris Habib. Da autoria de Ranaldo, a mostra seleccionada, detém-se sobre o trabalho performativo da banda nova-iorquina.

    Finalmente, o trabalho em curso de João Milagre pretende ser um documento singular e pioneiro no registo da música exploratória portuguesa, e surge de uma urgência em captar a essência de um grupo de artistas e músicos – Manuel Mota, Tropa Macaca, David Maranha, Afonso Simões, entre outros – que têm vindo a redefinir um novo paradigma na nova música portuguesa, criando um espaço nunca antes habitado.
    DR e SH

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    Quarta, 7 de Julho às 22h00
    135 Grand Street, New York, 1979  (Ericka Beckman)

    (1979, documentário, Americano, 60min, DVD, cor, em Inglês)

    “135 Grand Street, New York, 1979” é um filme singular que capta a aura e estética visual do movimento NO WAVE Nova-Iorquino e seus descendentes. Beckman mostra-nos os alinhamentos das bandas de garagem em vários graus de destruição que convergem com a poesia pós-tudo e o experimentalismo dos terroristas do Noise.

    O filme de Ericka Beckman coincide com a rudeza, minimalismo e radicalismo da música – Este filme é histórico. Incluí as únicas imagens das Theoretical Girls, The Static e um número considerável de outras bandas No Wave do período. Este é um filme sobre bandas de pintores, cineastas, actores e ocasionalmente músicos, pulsando no vibrante mundo pós-punk de Nova Iorque onde a arte elitista se encontra com a arte popular. Onde Glenn Branca, Rhys Chatham, Wharton Tiers, Taro Suzuki e outros fizeram a conexão entre John Cage e Joey Ramone.

    Ericka Beckman vive e trabalha em Nova Iorque. É conhecida principalmente pelos seus filmes conceptuais e post-punk filmados em Super 8 e 16mm que incorporam música original e performance, como Switch Center, Blind Country e Cinderela. Muitos dos seus filmes tiveram a participação dos artistas proeminentes da sua geração tendo sido exibidos em locais como o Metropolian Museum of Art, Museu de Arte Moderna, The Whitney Museum, The Hirshhorn Museum, The Institute of Contemporary Art (ICA, Londres), Kunstmuseum Bern, Centre Georges Pompidou (Paris) e muitos outros festivais internacionais e galerias.

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    Quarta, 14 de Julho às 22h00
    Noise Filmes
    (Lee Ranaldo, Leah Singer, Chris Habib e Sonic Youth)
    C/ Concerto de Sei Miguel – “Coração das Trevas”

    (De 1999 a 2005, vários vídeos, Americano, 42min, DVD, cor)

    Para esta sessão, Lee Ranaldo seleccionou 5 curtos filmes (Noise Films) realizados pelo próprio, por Leah Singer e Chris Habib, e que nos possibilitam um acesso privilegiado a imagens únicas de performances dos Sonic Youth da última década e meia.

    Gnarly Times – Detroit
    10’26’’  realizado por Lee Ranaldo, 2004

    Filmado do palco por Lee Ranaldo durante o excepcional encore de Sonic Youth no concerto de Detroit com os então companheiros de tournée Wolf Eyes e Hair Police

    Live Manipulated Super 8 Film  – Projection of Sonic Youth/Pavement
    8’45’’ realizado por Leah Singer, 1999

    Uma colagem de imagens e sons captados em Super 8 dos Sonic Youth e dos Pavement na tournée que fizeram em conjunto pela Europa em 1992. Projectado em tempo real por Leah Singer nos concertos.

    Sonic Youth (with Afrirampo) – Nagoya
    9’ 14’’ realizado por Lee Ranaldo, 2005

    Filmado em palco no concerto no Japão com as intervenções espontâneas das companheiras de tournée Afri Rampo

    Piano Piece #13 (for Nam Jun Paik): George Maciunas
    4’28’’ realizado por Chris Habib, 1999
    Uma performance filmada durante a gravação do álbum “Goodbye 20th Century”. Os Sonic Youth interpretam uma peça conceptual para piano de George Maciunas, um dos fundadores do movimento Fluxus , em que “ todas as teclas do piano são tocadas de forma a que o piano fique silencioso”.

    Other Sides of Sonic  Youth (with Mats Gustafson and Merzbow)
    9’09’’ realizado por Lee Ranaldo, 2005
    Filmado ao vivo por Lee no conceituado Festival Roskilde na Dinamarca onde os Sonic Youth e os seus amigos de longa data Mats Gustafson e Masami Akita tocam em colaboração durante uma hora numa improvisação incendiária.

    Lee Ranaldo (1956, East Norwich, NI) é co-fundador do grupo rock Sonic Youth. Para além das constantes tournées e colaborações com os SY, Ranaldo tem estado activamente envolvido na cena musical Nova-Iorquina dos últimos 30 anos, gravando e colaborando com inúmeros artistas, produzindo discos e publicando diversos livros de poesia e escrevendo textos para jornais. Ranaldo frequentou a SUNY Binghamton in Binghamton, NI, onde tocou com a banda de punk experimental chamada Fluks.

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    Quarta, 21 de Julho às 22h00
    Vivienne Dick Super 8 Films

    (De 1978, vários filmes super 8, Irlandês, 61min, DVD, cor, em Inglês)

    Serão exibidos nesta sessão três dos trabalhos inaugurais de Vivienne Dick,  realizados em Nova Iorque nos finais da década de setenta. Neles retrata-se o epicentro do movimento No Wave em relação directa com mulheres determinantes neste contexto, como Lydia Lunch e Pat Place.

    Guerrillere Talks
    28’, 1978

    O primeiro filme de Vivienne usa oito rolos super 8 com som para filmar em tempo real e sem montagem o perfil de oito mulheres diferentes. Cada uma delas é filmada como se a câmara fosse um co-conspirador mais do que um voyeur, reagindo em vez de gravar. As “actrizes” incluem Pat Place e Adele Bertei, antigos membros da banda Contortions, assim como Lydia Lunch, cantora, guitarrista, actriz e “decana” punk, que aparece em vários filmes posteriores de Vivienne Dick. Estas mulheres falam, lêem cartas, jogam pinball enquanto a câmara se aproxima e afasta usando um enquadramento obliquo. Realizado na segunda vaga do movimento de filmes avant-garde, depois do intenso escrutínio dos realizadores mais estruturalistas, este filme explora a auto-representação e politica social de um diverso grupo de mulheres de Nova Iorque dos anos 70.

    She Had Her Gun Already
    28’, 1978
    O segundo filme de Vivienne centra-se em duas das personagens de Guerrillere Talks. Filmado numa cozinha no Lower East Side de Manhattan, este filme explora a dinâmica entre uma complacente e quase catatónica Pat Place e uma agressiva Lydia Lunch, acabando numa montanha russa em Coney Island. O filme utiliza uma narrativa linear que é contrabalançada por uma visão impressionista de Nova Iorque. A relação entre as duas mulheres é ambígua: elas tanto podem representar elementos de uma única identidade ou a influência de uma personalidade forte sobre uma fraca. É a dinâmica entre estas forças desiguais que impulsiona a narrativa.

    Staten Island
    5’, 1978

    Pat Place interpreta uma criatura que vive numa velha e abandonada barcaça numa praia suja. O ambiente é apocalíptico e a música de Telstar é misturada com os sons de uma cozinha domestica.

    Vivienne Dick nasceu em Donegal na Irlanda e mudou-se para Nova Iorque em 1975, aterrando no epicento da era punk. Estabeleceu-se no Lower East End de Manhattan onde entrou no movimento de realizadores afiliados à música e estética do movimento No Wave. Filmados essencialmente em Super 8 os filmes de Dick deste período incluem artistas e músicos do mesmo movimento como Lydia Lunch, Pat Place, James chance e Ikue Mori. Evocando o espírito dos realizadores underground dos anos 60, o seu trabalho retrata um interesse particular na transgressão individual, na vida de rua, no kitsch e na cultura pop. O seu trabalho direcciona-nos numa perspectiva feminina sem no entanto deixar de nos absorver na sua complexidade, com uma preocupação acentuada no condicionamento social e politica sexual.

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    Quarta, 28 de Julho às 22h00
    É Preciso Aprender a Amar – Fragmentos de um Trabalho em Curso (João Milagre)
    C/ Concerto de Filipe Felizardo – “Into the Inbetweenness of Real Numbers”

    “É Preciso Aprender a Amar» é o título de um pequeno texto de Nietzsche que me acompanha há muito. Com ele compreendi que aprender a amar é também aprender a ouvir e a olhar. E assim aparece o cinema. Ensaio um ponto de vista sobre 7 personalidades da música exploratória contemporânea – Afonso Simões, Bernardo Devlin, David Maranha, Manuel Mota, Riccardo Wanke e os Tropa Macaca. Músicos e instrumentos, nós e as câmaras e a música e as imagens – improvisamos e exploramos em conjunto.
    Será possível captar a relação singular com a música? E poderão as imagens aproximar-nos desses sons e desvelar a sua estranha beleza?” João Milagre

    João Milagre nasceu em Lisboa em 1969 licenciou-se em Realização pela ESTC. Especializou-se na área da assistência de realização onde trabalhou com realizadores como Manoel de Oliveira, José Fonseca e Costa, Luís Fonseca, Francisco Manso, Vicente Jorge Silva,, Bille August, Patrice Chéreau, Charles Sturridge, Tom Clegg, entre outros. Realizou, escreveu para televisão e produziu espectáculos de teatro para a Casa Conveniente. Colaborou com a Akademya Lusoh-Galáktika, um projecto transversal de ensino, investigação e produção de Edgar Pêra.

    Foi co-fundador da Galeria Zé Dos Bois em Lisboa onde organizou todo o tipo de eventos relacionados com a arte contemporânea. Tem uma forte ligação à música e está envolvido em vários projectos, essencialmente como baixista. Lecciona na Área de Produção e de Argumento. Dedica-se à concepção e produção de objectos com imagens e sons em movimento, no ambiente dos Novos Media.

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