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Cinema
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Quartas-feiras - 20 e 27 de Julho; 3, 10 de Agosto 2016 / Quintas-feiras - 18 e 25 de Agosto 2015
Cinema no Terraço ZDB 2016
O Cinema no Terraço volta a trazer um luxuoso conjunto de documentários, muitos deles em estreia por cá. Ainda que a música seja a força motora de cada um destes trabalhos, é através dos seus contextos sociais, históricos e culturais que ganham uma dimensão maior. Este ano, o ciclo aborda diferentes temáticas e registos para as próximas noites de quarta-feira, no topo do edifício da ZDB.
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Quarta, 20 de Julho às 22h / Repete Quinta, 18 de Agosto às 22h
DROWNED CITY de Faith Millin (2014, 52’)
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É um facto que as rádios piratas sempre foram uma autêntica escola alternativa para melómanos. Um fenómeno internacional que continua a atravessar tempos e a demonstrar ser tão essencial numa esfera regulada pelas ditaduras das massas e pela estandartização das playlists. Talvez nunca como hoje, através das possibilidades da web, o conceito tradicional de rádio tenha evoluído. Assim como os programas de autor via podcasts. Algo que no entanto não anula a pertinência em ainda ocupar ilegalmente uma onda hertziana e um qualquer armazém ou cave que permita a sua transmissão. Drowned City é uma viagem por essas plataformas londrinas (contam-se actualmente mais de 80 activas) com todas as suas histórias, personagens e feitos. Se para uns representa um crime, para outros é uma bolha de ar onde a criatividade e o acto de partilha geram novos produtores e músicos, do mesmo modo que se sintonizam com novos públicos. A ascensão da Rinse Fm será o exemplo mais notável do papel de um meio inicialmente não-oficial na difusão de sons até então desprezados pelos grandes orgãos de comunicação. A ideia de criação de comunidade encontra-se omnipresente a cada momento, sendo essa a maior mensagem deste filme. Desafiando as autoridades e a mão pesada de multa ilimitada e pena de prisão até dois anos, Drowned City penetra nos espaços e interliga-se com as pessoas certas para melhor compreender estes projectos de profunda dedicação humanista – tal como a película a retrata. No fundo, este é um retrato intimista e acutilante sobre quem arrisca a sua conta em prol de uma contribuição maior.
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Quarta, 27 de Julho às 22h
9 FUTURES: SOUNDS FRAGMENTING de Nathaniel Budzinski & Theo Cook (2015, 64’)

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O ponto de partida é simples: visitar nove encontros anuais onde a expressão audio-visual é celebrada de modo original e audaz. Demarcada do circuito de festivais megalómanos amplificados por grandes marcas, 9 Futures é uma atenta incursão por eventos que em muito desafiam as convenções deste universo. Assinado pela dupla Nathaniel Budzinski (editor da revista Wire) e Theo Cook, a transversalidade estética surge aqui num ponto de vista global, picando cidades europeias como Berlim, Tromsø, Riga ou Manchester. Mais do que o elemento musical, este trabalho procura documentar essa pequena enorme comunidade que busca uma linguagem multidisciplinar, assente na experimentação e na utopia. O termo performance paira a cada uma destas paragens, frequentemente geradora de um fascínio imediato. De concertos em teatros históricos até instalações sonoras com animais, os conceitos de ‘música’ e ‘festival’ ganham um novo significado, abrindo espaço para a surpresa e para o hilariante. A captação destes momentos não se guia por uma narrativa linear, optando antes como um conjunto de breves observações fragmentadas num estilo não distante de Vincent Moon, autor do documentário musical All Tomorrow’s Parties.
Gravado ao longo de mais de seis meses, 9 Futures faz emergir a importância vital da criatividade; não apenas artística, mas acima de tudo financeira e social, em fazer acontecer coisas impensáveis com base em sinergias e uma imensa dedicação capaz de (quase) tudo. No fim, sobra a vontade maior de experienciar, na primeira pessoa, a vida destes projectos.
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LAFMS: How long can you go? de Holly Thompson & Mark “Frosty” McNeill (2016, 16’26’’)
Na alvorada da década de 70, Los Angeles viu nascer um colectivo de exploradores musicais cuja actividade se mantém até aos dias de hoje. Hábeis na concepção de instrumentos não-tradicionais e incansáveis na busca de sons em estado bruto, esta é uma curta, mas cativante, narrativa audiovisual sobre Los Angeles Free Music Society. Entre breves imagens de actuações e conversas com os elementos do grupo, ressalta a sua profunda união no sentido de quebrar fronteiras e alcançar utopias. Além disso, trata-se de uma lição DIY, demonstrando que por vezes a matéria sonora mais impressionante não se encontra em equipamento de elevado custo, mas sim ao nosso redor. Paixão e dedicação no seu melhor.
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Quarta, 3 de Agosto às 22h / Repete Quinta, 25 de Agosto às 22h
DON’T THINK I’VE FORGOTTEN: CAMBODIA’S LOST ROCK AND ROLL de John Pirozzi (2014, 115’)
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Do brilhante auge ao desfecho dramático, este é um olhar profundamente apaixonado e dedicado sobre a cultura rock n’roll no Camboja. Não apenas da música, mas a sua implicação social. Entre vários depoimentos e imagens inéditas de arquivo, somos convidados a penetrar na própria história do país entre as décadas de 50 e 60. Com o príncipe Norodom Sihanouk no poder, assistiu-se a um período extremamente fértil na produção cultural. Também ele músico, a posição oficial do Estado de apoio incondicional à expressão artística permitiu o nascimento de gerações de guitarristas, bateristas, cantores e tantos outros. Foram imensas as big bands, os trios e os projectos a solo de nomes que um dia ficaram cravados na memória colectiva daquele povo. Com a normal distância e desconhecimento geral do Ocidente, é inevitável que muita da música presente em Don’t Think I’ve Forgotten: Cambodia’s Lost Rock and Roll soe exótica, refrescante e magnética. As imagens que compõem este documentário não poderiam ser mais vibrantes; está lá o sentimento de uma época de prosperidade, celebração e sofisticação, mas igualmente um toque nostálgico e o evidente o contraste dos tempos negros da ascensão do ditador Pol Pot. A abordagem do realizador John Pirozzi é honesta e realista, sem artifícios desnecessários, e concentrando-se apenas no valioso espólio que dispõe. Ao longo das quase duas horas de filme, o ritmo é contagiante, as imagens luxuosas e o sentido de homenagem aos inúmeros músicos que fizeram parte desta era dourada apresenta-se não menos que notável.
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Quarta, 10 de Agosto às 22h
IRON IN THE SOUL : THE HAITI DOCUMENTARY FILMS de Leah Gordon (2015, 104’)
Leah Gordon é uma referenciada artista multimédia, autora de inúmeras peças, colecções e instalações. Tem dedicado boa parte da sua carreira a entregar-se às raízes do Haiti, tornando-se numa perita no que diz respeito à sua história e cultura. A pessoa exacta para que a Sounds Of The Universe, subsidiária da Soul Jazz Records, confiasse esta tremenda série de três takes em redor da expressão artística do país. Se já antes as prestigiadas compilações musicais da editora fariam apontar uma sede genuína em agregar estes pedaços de folclore desconhecido, esta empreitada visual representa um fabuloso acréscimo à entrada no imaginário haitiano. A Pig’s Tale é o primeiro capítulo da trilogia, centrado numa improvável pirâmide, cujos vértices assentes em temáticas díspares como voodoo e imperialismo americano. A segunda face aborda a vida de Bounda pa Bounda, um mítico personagem do carnaval local cuja obra e filosofia de vida são, por si só, dignos de atenção. A última fracção de Iron in The Soul é intitulada de Atis Rezistans e partilha o dia-a-dia de quatro artistas contemporâneos. Cada um deles, um olho focado na herança ancestral de África – bem como as suas re-apropriações, por vezes futuristas ou vagamente surrealistas. Fascinante e obrigatório.
Texto de Nuno Afonso
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Entradas: 2€ | Bilhetes disponíveis na Tabacaria Martins e ZDB (em dias de concerto). A ZDB apenas aceita reservas dos seus sócios para as sessões de cinema.
* Os filmes não têm legendas em Português
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Apoio logístico: Teatro Maria Matos
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