• Cinema
  • 14, 21 e 28 Setembro 2011

    Cinema no Terraço: Japão mais fora deixa o mundo à nora

    Desde a década de 1960 que a musica pop é um tema querido ao documentário. E há várias razões que explicam esse afecto. Por exemplo, as ditadas por acasos históricos: na mesma altura em que o rock explodiu como força cultural e fenómeno artístico, as câmaras de filmar tornaram-se mais acessíveis e portáteis. E, por consequência, os acontecimentos mais fáceis de captar.

    Filmar o aqui e o agora da música, dos cantores, do som tornou-se irresistível e a ficção, com todas as suas implicações políticas, não ficou de fora. A pop e o rock prestavam-se a narrações, ofereciam personagens, mitos, lendas. Nos anos 60 e 70, Don´t Look Back (sobre um artista), Gimmer Shelter (sobre um festival e uma banda), The Last Waltz (sobre um concerto) rapidamente construíram um cânone que o punk veio, senão estilhaçar, pelo menos interrogar. Em 1977, as promessas da música popular já tinham caído, e esse desencanto foi bem capturado pelas imagens cheias de grão, laranja, preto e vermelho, de The Decline of Western Civilization I, de Penelope Spheeris, e o preto e branco do punk de Nova Iorque, nos documentários de Lech Kowalski.

    Depois de um leve adormecimento na década de 80, o primeiro decénio do século XXI, tem sido prolífico em documentários dedicados à música popular. A portabilidade da câmara de filmar (agora através do vídeo) reencontrou-se com desejo da narração, de contar as histórias, mais ou menos trágicas, épicas ou (até) burlescas. Um aspecto inédito foi, entretanto, sobressaindo: a consciência de um passado, de um carácter histórico (já lá vão 60 anos) e a noção (estimulada pela globalização cultural e a Internet) de que existem outras tradições, mesmo que originadas pelo hegemonia anglo-saxónica.

    Nas  sessões de “Japão mais fora deixa a mundo à nora” encontramos o desejo de contar, de trazer, pelas imagens em movimento, as histórias por detrás da música; neste caso, histórias “exóticas”, periféricas, marginais. E a vontade de acrescentar aos géneros da musica popular, nomeadamente ao jazz e ao rock, outras narrativas.

    O Japão é um dos poucos países que ombreia com os Estados Unidos, a Inglaterra ou o Brasil em termos de influência cultural à escala planetária. O cinema, o anime e o manga são talvez as faces mais mediáticas desse poder. Já a sua música popular (que ingere e recria as referências anglo-saxónicas desde 1950) só a partir de meados dos anos 90 conheceu a atenção e curiosidade de jornalistas, críticos e músicos. Primeiro, com nomes considerados de cultos ou familiares a certos contextos (Shonen Knife, Cibo Mato, Boredoms, Ground Zero), depois com as edições de obras pouco conhecidas e a divulgação de músicos como Keiji Haino, Acid Mothers Temple, Merzbow, High Rise, Kan Mikami, Corrupted, Ghost ou Mainliner. O efeito, em particular nos Estados Unidos, foi impressionante. Da cena noise à psicadélica, tocando as fronteiras do mainstream e do indie, a benigna invasão japonesa foi recebida por bandas e músicos como os Black Dice, Sightings, Comets On Fire, Animal Collective, Damon and Naomi, Sonic Youth, Julian Cope, No-Neck Blues Band, Four Tet ou Deerhoof. E no universo da música experimental e do jazz, nasceram novos circuitos e colaborações, onde participariam, entre outros, Yoshihide Otomo, Sachiko M, Nobukazu Takemura, Merzbow, Yamatskua Eye, Aki Onda ou Tetuzi Akyama.

    É um mundo extenso, complexo, fascinante, o da música nipónica. E não está completo, nem será fixo por qualquer imagem. Move-se com os músicos que habitam estes filmes.
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    We don’t care about music anyway…

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    We don’t care about music anyway…,
    de Cedric Dupire & Gaspard Kuentz chega inspirado pela Série B japonesa e o manga, mas é um filme sobre uma cidade, Tóquio. Melhor é um filme sobre a música que se insinua sobre as paisagens arquitectónicas e sociais dessa cidade (arranha-céus, estações, vias rodoviárias, multidões a caminho do emprego). Não se trata de uma banda sonora exterior à acção. O que se ouve é profundamente diegético. Vemos e ouvimos Otomo Yoshihide ou Hiromichi Sakamoto a manipularem “turntables” ou guitarras enquanto o ambiente urbano, com os seus ruídos (de um telemóvel, o trilhar de um comboio), parece prolongar-se nos amplificadores. Então, onde acaba a música da cidade e o som destes criadores? Será o frémito da electrónica e do noise o espelho legítimo da urbe contemporânea? Ou, como certas imagens insinuam, a sua negação? “We don’t care about music anyway…” abre-se a esta e outras possibilidades.

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    La Faute des Fleurs – A Portrait of Kazuki Tomowaka

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    La Faute des Fleurs – A Portrait of Kazuki Tomowaka
    continua na cidade, mas o que interessa ao seu realizador Vincent Moon é descascar as faces do cantor japonês: as colaborações com cineastas (compondo para filmes de Koji Wakamatsu e Takashi Miike), o vício do álcool, o gosto pelas corridas de bicicletas, o dom para a pintura. O projecto começou com um convite de um fã de Moon, porventura conhecedor dos vídeos que este produziu para o site La Blogotheque. E de facto, o tom intimista, caloroso, construído em trémulos planos sequência, e que aproxima o espectador do músico, atravessa La Faute des Fleurs. Não há qualquer tentação voyeurística: seguimos, como se de repente alguém nos transportasse para a rua ou o palco, os passos, as guitarras e o grão da voz de Kazuki Tomowaka, cantor esgotante, ternamente furioso. E a vida e obra confundem-se na nossa memória.

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    .Les Rallizes Désnudés

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    Da memória, falam os filmes que documentam as actuações/performances dos Fushitsusha (a banda de Keiji Haino), Masayuki Takayanagi, Karoe Abe e High Rise. Podemos chamá-los de documentos, pela sua inocência, pela surpresa, pelo domínio do material. Mas são também imagens, viscerais, rudes, primárias. O registo amador vídeo e os corpos numa torção que só o som liberta, ajudam e explicar o entusiasmo do choque. O concerto dos Fushitsusha foi gravado em 1991, em Tóquio, no Shibuya La Mama Club e mostra um fenómeno cada vez raro nos dias de hoje: a electricidade da guitarra, insondável, sublime, a tomar conta do ecrã.

    The Complete Works of Jojo revela-nos duas performances de Masayuki “Jojo” Takayanagi. Intervenção, manipulação, improvisação deste intérprete das vanguardas populares da música japonesa. Acid-rock, jazz e experimentação, num “anything goes” que erige experiências sonoras, desmontado lugares-comuns em palco, com os instrumentos e nos ouvidos.
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    Kaoru Abe

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    Uma intensidade semelhante agita as imagens de Kaoru Abe, numa filmagem de um concerto em 1977, e dos High Rise, os únicos sujeitos de Psychedelic Speed Freaks Live. O saxofonista apresenta-se num Jazz Kissa (café em Japonês), a improvisar sobre um piano, bateria, clarinete e saxofone. Momento raro para ver em acção uma lenda. Da banda de Osaka podemos dizer o mesmo. No que ao rock diz respeito, foram um dos nomes que manteve esteticamente a chama acesa: guitarras liquefeitas, abstracção, velocidade, júbilo. O rock como forma de arte, “tout court”. JM
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    Quarta,  14 de Setembro às 22h
    We Don’t Care About Music Anyway… (Cédric Dupire e Gaspard Kuentz)
    2009, documentário, França/Japão, 80 minutos, DVD, cor, em Japonês com legendas em Inglês

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    Quarta, 21 de Setembro às 22h
    La Faute des Fleurs – A Portrait of Kazuki Tomowaka (Vincent Moon)
    2009, documentário, Japão, 70 minutos, DVD, cor, em Japonês com legendas em Inglês

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    Quarta,  28 de Setembro às 22h
    Fushitsusha / 1991.9.26 19:15~20:08
    1991, PSF Records, 53’, DVD, cor
    Keiji Haino: Voz e guitarra | Yasushi Ozawa: Baixo | Jun Kosugi: Bateria

    The Complete Works of Jojo (Action direct 1 / Masayuki Takayanagi)
    1990, Yasunori Saito e Kyoko Saito, 59’, DVD, cor

    Kaoru Abe Live at Passe-temps
    1977, 90’, VHS para DVD, cor

     

    Psychedelic Speed Freaks Live
    1986, 24’, DVD, cor
    Nanjo: Baixo e voz | Narita: Guitarra | Ujiie: Bateria

    .Les Rallizes Désnudés
    1992, Ethan Mousiké, 87’, DVD, cor

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    Estes filmes serão exibidos em vários espaços da ZDB. O concerto de Kaoru Abe será projectado no Terraço

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    Entrada: 2€
    Reservas: 21 343 02 05 ou [email protected]

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    Programação Daniela Ribeiro com o apoio de Sérgio Hydalgo | Texto José Marmeleira | Apoio técnico Cristiano Rodrigues Nunes | Imagem gráfica Sílvia Prudêncio | Manutenção Maria Emília Pereira

    Agradecimentos Aki Onda, Hideo Ikeezumi, Keiji Haino, Keiko Higuchi, Miguel Arsénio, Miguel Valverde