• CONCERTOS
  • 28 de Abril 2012

    Matana Roberts | Filipe Felizardo


    Matana Roberts

    Uma das mais urgentes vozes da música exploratória afro-americana da actualidade, Matana Roberts conseguiu coisa rara: sintonizou tudo o que a rodeia, todo o mistério do mundo articulado num grito de saxofone, fluxo e refluxo onde uma espécie de narrativa a transbordar séculos de diferentes significações herméticas olha bem para o fundo (belo, repulsivo, belo/repulsivo) do que é a tradição jazz e a experiência cívica americanas.

    Natural de Chicago, membro activo da mítica Association for the Advancement of Creative Musicians, Roberts tem no recente projecto COIN COIN o momento maior de um percurso feito a coragem e honestidade (o álbum está aí, editado pela Constellation, e é incrível). Descreve-o como “composições para uma linguagem sonora”, forma de por em música uma comunhão espiritual que atravessa tempo e gente e sai outra coisa pelo outro lado. Matana Roberts tem a verdade no sopro e isso é uma coisa única de se ouvir. MP

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    Fotografia de Sara Rafael

    Filipe Felizardo

    E a música de guitarras continua a fazer -se (muito) com a voz das cordas. Foi um percurso longo, cheio de desvios e derivas. Mas podemos assinalar alguns momentos, coincidências. Entre 1993 e 1995, os Earth editaram dois discos onde as canções eram recipientes de modulações e atmosferas (Earth 2: Special Low-Frequency VersionPhase 3: Thrones and Dominions): rock que de tão “pesado” se tornava horizontal. E em 1997, Neil Young calava-se para deixar os acordes acompanharem a viagem de William Blake (Johnny Depp). Durante este período, os Nirvana já haviam terminado e a música electrónica tomava de assalto a história como o único género esteticamente progressivo.
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    À guitarra, eléctrica ou acústica, restava uma autorreflexão e um regresso ao passado com dois intuitivos: explorar outras potências (o drone) e rever cânones e histórias (como a da Escola de Takoma, do free-jazz, do improv, do noise ou de gentes esquecida: Harry Pussy ou US Maple). O resultado foi a descoberta de um universo que continua a expandir-se.
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    Filipe Felizardo pertence a esse universo, ainda que a sua música não obedeça a programas ou referências. Traçou o seu próprio lugar e a partir dele compõe espaços e silêncios. Há momentos em que a guitarra sugere melodias ou acordes reconhecíveis, mas logo se sustém, antes de largar vibrações, ecos. Num momento, ameaça “cantar”, noutro abraça a efemeridade do som. Nunca se impõe. A conversa que estabelece com o instrumento abre-se aos outros, com inflexões suaves, pontuações seguras. É melancólica, tímida, fugidia, imprevisível.
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    De alguma forma, na música de Filipe Felizardo – e o novo disco, “Guitar Soil For The Moa And The Frog”, com selo da Shhpuma é disso exemplar – ouvem-se duas vozes. A da reverberação, que é a do aço (da guitarra) e a do fazer solitário, artesanal e reflexivo do performer. É essa relação intimista, irredutível, ricamente austera que as canções revelam. Uma relação hoje tão desprezada, com o som e com acto de ouvir: música de guitarras. JM

    + Info:   VídeoEditora Sshhpuma Entrevista